22/01/2010

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11/11/2009

Mixed feelings. Gilberto Gil e Robert Enke

Fui ver Gilberto Gil. Faltava-me estemagnífico para completar o quarteto de musicos brasileiros que não queria deixar de ver. Vi Ney, o provocador, Chico poeta, Caetano e a voz da tranquilidade duas vezes, e agora Gilberto Gil, rei dos jogos de palavras. Está completo e eu feliz. Acompanhado de Jacques Morelenbaum e o filho Bem Gil, Gilberto Gil brilhou esta noite em Lisboa. O concerto foi como se esperava: bom, sereno. Os sons, assobios longos e falsetes de Gil são extraordinários.
Antes de começar, estive de telefone na mão a queixar-me no twitter da falta de educação das pessoas, dos atrasos, dos sentares. Enfim, ficará para um texto mais light. A última coisa que soube antes de as luzes se apagarem foi da morte de Robert Enke. Aqui páro como então.
Sao dois mundos distintos, dois momentos opostos. No entanto, sinto-me em ambos.
Robert Enke morreu? Não consegui acreditar, como sempre acontece nestas coisas. Robert Enke, morto.
Fui confirmar no Google. Pormenor mórbido: na wikipédia já constava data de nascimento e morte – 10 de Novembro de 2009, isto é arrepiante ou isto é arrepiante? Não fui ver motivos, ou pior, como foi. E se puder não os saber tanto melhor. Detesto essa exploração da desgraça alheia. Sim, estou a escrever sobre isso. Pretendo, não sei se consigo, referir o Enke que conheci e esse estava vivo. Que nos atrai tanto nas pessoas depois de mortas? Depois de sair do Benfica esteve em Barcelona, no Fenerbahçe e ultimamente no Hannover (pode falhar-me algum). Era suplente de Lehmann na Mannshaft.
Num flash vi a cara de Robert Enke. As luzes apagaram-se e o concerto começou. Tive de aproveitar Gilberto Gil ali à minha frente. Fechei-me no CCB com ele e quem lá estava. Fiquei ali onde só havia violões (e um violoncelo importantissimo). Ouvi a voz de Gil que é mágica e tranquila como a de todos os grandes do Brasil:será genético ou sugestão minha?
Aplausos. Muitos. Gilberto Gil é enorme. A simpatia, a calma... Belo concerto no mais puro sentido da palavra. Quase duas horas de beleza pura.
Tive naquela sala um último momento. Aquele foi um concerto num mundo já sem Robert Enke. Coisas minhas. Depois acabou. E eu saí de onde me refugiara por umas horas do mundo em que é verdade: Robert Enke morreu.

20/10/2009

Piove senti come piove...

Piove! Senti come piove! Madonna come piove! Senti come viene giù!
Piove! Senti come piove! Madonna come piove! Senti come viene giù!


Falta um ou dois minutos para as nove. Estou no meu lugar e as calças que são mel, parecem camuflado de tanta gota que têm. Nunca sei se camuflado está in ou out, para mim está sempre out a menos que vá em missão ao mato o que até hoje não aconteceu.
Está a chover em Lisboa. Chove. E chove. E chove. Chove pelo menos desde que saí de casa, há mais de uma hora, e não parece querer parar.
Chove e com a chuva vem o costume: os atrasos dos transportes, o trânsito entupido, as pessoas a reclamar. Uma animação, portanto.
Já sei, já sei, a chuva faz falta. Pois fará, mas podia vir em doses e lugares certos, só isso. A mim não faz falta entre a estação e o trabalho ou casa. Nem faz falta no asfalto ou nos carris, certamente. Pelo menos nesta medida de hoje que é… como é o termo técnico… ah sim, um abuso. Faz falta às plantas aos animais e para baixar os pós e moscame que em Outubro enche este país. Verdade. Mas transtorna mais do que faz falta no meu caminho para o trabalho. Faz falta, mas a verdade é que neste país se passa a seca a clamar pela chuva e em meia hora já temos cheias. E isso não pode fazer falta a ninguém.
Em dias como hoje que mais se ouve depois das reclamações, seguidas do “mas faz falta…”? O típico “gosto tanto do cheirinho a terra molhada…” Haverá alma que não tenha ouvido isto? Faça-se um perfume, um ambientador com esse aroma e distribua-se. Eu conheço esse cheiro. Não morro de amores por ele, e é raro senti-lo. Há zonas onde só se levanta o cheiro a enxofre, que para mim só existia em histórias de bruxas e assim podia ter continuado que o dispensava bem.
Enfim, pode dizer-se que não sou fã da chuva. Mas não podendo evitá-la, prefiro que chova como deve ser. Chuva como deve ser é aquela pesada, gotas grossas e que cai cerca de uma hora seguida de cada vez, não mais. E sem vento, é fundamental não haver vento. Chuva e vento são verdadeiros desafios que só ainda não percebi quem promove. Mas é certamente alguém que está acima das nuvens.